
O sopro e a travessia do ser
Há livros que se leem como paisagem e outros que se leem como travessia.
Sopro pertence claramente ao segundo tipo. Não é apenas um conjunto de poemas, mas um percurso interior onde a voz poética se interroga, se fragmenta e lentamente se recompõe à medida que aprende a respirar o mundo.
Desde os primeiros textos, a poesia instala-se num território de inquietação.
O eu procura-se entre memórias difusas, feridas que a pele ainda guarda e perguntas que atravessam a consciência.
“Quem sou?” não é apenas um poema: é o gesto inaugural de todo o livro. A partir daí, a escrita move-se como quem tateia no escuro, procurando uma verdade que raramente se apresenta de forma luminosa.
Mas Sopro não permanece nesse território de sombra. À medida que avançamos, a poesia abre-se a outros espaços: a natureza, a infância, a memória do corpo, a relação com os outros.
A chuva que desperta a criança interior, as raízes que conversam com os pés descalços, o colo que susteve a infância — são imagens discretas que devolvem à experiência humana uma dimensão sensorial e íntima.
Há também um fio espiritual que atravessa o livro, mas sem qualquer gesto de doutrina. Trata-se antes de uma consciência do tempo e da continuidade: a sensação de que a vida é passagem, que o ser se constrói entre memórias que não recordamos inteiramente e destinos que apenas intuimos. Nesse intervalo, o poema torna-se lugar de escuta.
É talvez por isso que o símbolo do sopro se torna tão central. O sopro é o que atravessa o corpo, o que liga o interior ao mundo, o que permanece quando tudo o resto parece mover-se. No momento em que a voz poética reconhece ter encontrado “o próprio sopro”, o livro atinge o seu ponto de viragem. A partir daí, a poesia torna-se mais contemplativa, mais aberta à presença.
A escrita é depurada, frequentemente breve, e procura a força da imagem em vez da explicação. Muitos poemas funcionam como pequenas epifanias: instantes em que o mundo exterior — a terra molhada, o vento, o silêncio — revela algo da paisagem interior.
No final, Sopro deixa a sensação de que a poesia não serve para resolver o mistério da existência, mas para habitá-lo com mais lucidez. Entre o peso das nuvens e a quietude que se aprende a escutar, o livro recorda que a vida é, antes de tudo, uma travessia — e que talvez o mais difícil seja simplesmente permanecer, respirando.

Manuela Vieira

Escritora, poeta e contadora de histórias.
Adoro voar com as palavras!


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