Artigo de Opinião - O Tempo

Já conheces o meu novo livro, Maria Campinas, a menina que veio das estrelas?

Nesse livro, um dos heróis é o Tempo em forma de cãozinho fofinho. É o segundo (tic-tac -uma fração do tempo). Cheio de humor, mas com mensagens cativantes para pequenos e grandes. E a pensar no tempo (que não é cão) deixo-vos esta reflexão.

O tempo não anda para trás, nem para a frente. Mesmo com as mudanças das horas de inverno e verão, ele é o mesmo. Tic-tac, tic-tac. E dentro destes tics e tacs, há frações mínimas do tempo que jamais perdem a sua cadência. Ritmos que a eternidade nos oferece. Será que entendemos isso a jeito?

Preocupa-me a infância: o modo apressado de crescer, sem se Ser!

Alguém me disse, a propósito dos bebés irem para o berçário, em tenra idade: “Está aprovado que as crianças que se socializam cedo, são mais inteligentes.” Socializar, como? Indo aos 4 meses para os berçários? Sem algum discernimento para compreender a ausência dos pais numa manhã inteira, ou tarde, ou mesmo o dia inteiro?

E a propósito do uso da tecnologia em tenra idade, também ouvi: “Não quero que o meu filho cresça como um ignorante digital, por isso, tem um smartphone.” Ignorante, como?

Ficará mais sábio e pronto para o futuro, fazendo scroll no telemóvel a ver a vida ilusória e estranha na internet, sem capacidade de discernir?

A verdade é que o mundo está a fabricar uma inteligência que não respeita o TEMPO. E todos sabemos que o tempo é sábio, não é?

Tudo a seu tempo, não é sinónimo de preguiça, mas sim de respeito.

Estamos povoados de inteligências que nos assustam por falta de capacidade de ver o que os olhos não veem, de ver com os sentidos que brotam do coração. Onde estamos a falhar, perguntamos. Qual foi o tempo atropelado?

Há um tempo virtual a engolir o tempo real. Já se aperceberam disso?

E há um tempo que quer abraços e colo a competir com o tempo que ainda não chegou, ditado pela ganância, orgulho e cegueira da competitividade imunda que esquece o essencial da educação.

Relativamente ao primeiro, quem ainda não se deu conta do tempo que “voou” ao “pesquisar” as redes sociais? E depois a própria pessoa diz, “ui, tenho que parar com isso, já está na hora de …”

Há uma ilusão de velocidade, tão grande no dedilhar o ecrã, a ponto de viciar qualquer um.

Qual o lugar dos ecrãs no tempo?

Para despachar o almoço, a criança fica com o ecrã e a comida chega-lhe à boca;

Para não cair em brincadeiras próprias da idade, a criança fica sentadinha à frente do ecrã a fazer scroll;

Para não se entediar, enquanto não chega à escola, a criança fica no ecrã, não há paisagem, não há conversa, não há silêncio.

A doença instala-se devagar. Primeiro o sono torna-se irregular, o apetite modifica-se, a vontade de interagir vaporiza-se, a tolerância deixa lugar para a inquietude, a coordenação paralisa e o vício instala-se.

O problema é que estas doenças vieram da capacidade de engolirmos o tempo a todo o custo. Num clique, estamos num jogo, noutro numa conversa, noutro ali, noutro…

O tempo que engolimos foi o que de facto existiu, mas passou ao lado.

A infância, tem uma finalidade muito especial no ser humano. Vivê-la é preciso, porque ela passa.

Lembrei-me de um trecho de um poema meu (do livro que está no forno), que fala precisamente disso:

Eu sou de um tempo

Em que o tempo corria parado

Em que a nostalgia acontecia

Em que contemplar era a minha arte.

Eu sou de um tempo em que se crescia trepando as árvores

Em que se gargalhava dançando à chuva

Um tempo que me trouxe o que sou hoje

Aquele que envolve a minha parte.

(…)

Convido-te a ler, só ou com a tua criança, o livro Maria Campinas, a menina que veio das estrelas, e refletir sobre tudo isto. Quem sabe novos heróis irão surgir, a partir de abraços e cuidados na própria família, no compasso certo de um tempo soberano.

Manuela Vieira

Manuela Vieira

Escritora, poeta e contadora de histórias.

Adoro voar com as palavras!

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