Este texto foi o resultado de um exercício de escrita sensorial proposto por Sara Timóteo, no grupo Desafio 1000 palavras.
Encontrei o vestido que há muito procurava. Incrível como fico feliz de o abraçar, como se de um verdadeiro amigo se tratasse. E não foi? Nele, vejo o passado e o futuro que, na época, me parecia um sonho. O futuro que se fez hoje.
Ainda macio, levo-o ao peito, fecho os olhos, sinto o cheiro do verão a chegar. Regresso aos dias em que cada flor, minuciosamente desenhada, me brindava com o seu toque na pele do ventre, que, redondo, se esticava como um ninho.
Sem ouvidos escutava-me, mudo acompanhava-me, e comigo alongava-se dando espaço à bebé que se fazia nossa.
Os murmúrios, as dúvidas e ânsias que me assaltavam, eram guardados em segredos que se apagavam pela beleza que me oferecia. Era jovem. A brindar o momento único de uma mulher. Sendo cocriadora com Deus, deixava a bebé pontapear e vibrar com o seu primeiro brinquedo. Eras tu, o primeiro a saber todas as coisas.
E hoje, olhando para ti, peça do meu mundo, futuro de há quarenta anos, respiro de alívio. Sabes porquê? Ela cresceu, fez-se mulher, linda, amorosa, sensível. É mãe também. E sabes que mais? Vai fotografar-se contigo vestido. Esperavas por isso, companheiro?


Manuela Vieira

Escritora, poeta e contadora de histórias.
Adoro voar com as palavras!


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