Quem sou?
Quem sou?
A pergunta rasga-me por dentro
como vidro na pele.
Procuro-me
não nas vitrinas da cidade,
não nos aplausos fáceis,
não nos diplomas pendurados
como troféus de uma guerra invisível.
Procuro-me
no silêncio que me dói,
no quarto escuro da madrugada
onde os pensamentos gritam
e ninguém os ouve.
Quem sou
quando me despem os títulos?
Quando me arrancam as certezas?
Quando fico só
com o eco do meu próprio nome?
Há uma inquietação
que me pulsa nas veias,
uma sede antiga
que não se mata com conquistas
nem com lugares alcançados.
Dizem-me quem devo ser.
Empurram-me moldes,
vestem-me expectativas,
confundem-me com o que produzo.
Mas eu quero mais.
Quero encontrar-me
antes que a dor fale por mim,
antes que as feridas decidam
o desenho da minha identidade.
Descobrir quem sou
é atravessar o medo,
é olhar o abismo
sem fechar os olhos.
Quem sou?
Sou essa procura em carne viva.
Sou a luta entre o que esperam
e o que pulsa.
Sou o grito contido
à espera de nascer voz.
Descobrir quem realmente sou
é não permitir
que a dor responda por mim.
Quem sou?
Talvez a coragem
de continuar a procurar.
in SOPRO de Manuela Vieira

Manuela Vieira

Escritora, poeta e contadora de histórias.
Adoro voar com as palavras!


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